Tenho o hábito de ler os blogs palmeirenses, em parte pelos amigos ligados a alguns deles, e também pela enorme expectativa gerada pela construção da nova arena entre os torcedores palestrinos.
Me agrada muito perceber como a construção da nova arena despertou o interesse dos torcedores, e a consequente busca por mais informações sobre esse assunto. Entre os meia dúzia de leitores do meu blog, diria que talvez metade sejam torcedores do verdão. Acredito mesmo, que não exista nenhuma torcida hoje no Brasil tão ligada e informada no assunto quanto eles.
Entretanto, lendo algumas das centenas de comentários nos diversos blogs, confesso que me diverte observar a verdadeira obsessão que a grande maioria dos palmeirenses tem em relação a capacidade da futura arena. Apesar do projeto prever uma capacidade de 45.000 lugares, a grande maioria quer porque quer, ou sonha, com pelo menos 10 ou até 15.000 lugares a mais.
Teorias para isso sempre existem.
O orgulho de ver construído o maior e melhor estádio privado do Brasil. O prazer de suplantar o rival do Morumbi. A ambição de reverter a indicação do estádio são-paulino como sede paulista da Copa no Brasil. Enfim, motivos não faltam. Claro que do ponto de vista do torcedor, todos os motivos anteriores são válidos, pois torcer por um clube é querer vê-lo sempre na vanguarda.
Já tive a oportunidade de opinar sobre isso em alguns blogs e conversar com os amigos palmeirenses, mas como não sou torcedor e minha visão é técnica, acabo sendo meio que um estraga prazeres. Então volto ao tema, e vou tentar o improvável, que é mostrar que o projeto para 45.000 lugares está bem adequado.
Partindo do princípio que a WTorre , investidora e construtora do estádio, não tem interesse em perder dinheiro, que razões ela teria para dimensionar o estádio em 45 e não em 55/60 mil lugares ?
Em primeiro lugar existe a limitação física, a área disponível. A idéia pueril de que em casa que come 1 comem 3, ou seja, em projeto que cabem 45 cabem 55, é falsa.
Portanto, aumentar 10 ou 15 mil lugares num projeto pode esbarrar em limitações arquitetônicas de vários tipos, considerando a concepção escolhida. No caso de 2 anéis, já que a área é a mesma, o que fazer ? Aumenta-se o anel inferior ? E a inclinação do anel superior como fica ? Aumenta-se o anel superior ? Mas e os custos com a circulação de mais gente no andar de cima (necessidade de mais rampas, escadas, elevadores e etc.) ? E a segurança no caso de necessidade de evacuação rápida da arena (quanto mais gente no anel superior mais lento o escoamento) ? E novamente, como fica a inclinação ? Uma arena não é um “puxadinho”.
Assim sendo, percebemos que a limitação de área é fator decisivo para a capacidade do projeto,deste ou de qualquer outro.
Mas a arena não poderia ser construída em outra área, maior ? Sim, mas nesse caso toda a concepção do negócio em si se perderia. O fato do clube entrar no negócio com o terreno, e portanto diminuir em talvez 1/3 o custo total caso a Wtorre necessitasse comprar outra área, tornou o negócio muito interessante para o clube. Sem essa área, possivelmente não haveria negócio, ou na melhor das hipóteses, os prazos de retorno do investimento seriam muito maiores, e as condições para o clube, inferiores.
Em segundo lugar, existe o fator comercial, e aqui eu descrevo dois exemplos de estádios, um construído e outro a construir, que ilustra o pensamento.
Em 1994, o Ajax possuía uma arena com oferta de 27.000 lugares. A taxa de ocupação média beirava os 100%, com demanda não atendida calculada em cerca de 15.000 torcedores por partida. O Amsterdam Arena foi erguido em 1997, com capacidade de 55.000 lugares. Nos primeiros 10 anos a média de ocupação situou-se na faixa de 48.000 lugares, tendo decaído nas últimas temporadas para cerca de 42.000. Importante lembrar que a área, cedida pela municipalidade na periferia da cidade, era compatível com o porte do projeto.
Há poucas semanas atrás quem apresentou o projeto de seu novo estádio foi o Tottenham Hotspur, tradicional clube do norte de Londres. A capacidade prevista é de 56.250 lugares, e substituiria o centenário White Hart Lane com oferta de 36.000.
O clube hoje possui 70.000 sócios-torcedores, e uma lista de espera de ingressos para a atual temporada acima de 23.000 pedidos, e a área disponibilizada para o empreendimento é de aproximadamente 60 acres (que acredito ser superior a área do Palestra).
Tendo em vista os números acima, comparemos com os números do Palmeiras hoje.
- O atual estádio não comporta mais que 30.000 torcedores (27/28 mil com segurança).
- A média de público no atual campeonato é de 18.047 torcedores.
- O clube hoje não possui um programa de sócio-torcedor que possa embasar uma demanda potencial mais apurada. Utilizar a quantidade de sócios do clube não é válido, pois nem todos são torcedores do clube.
- Como o clube não vende carnês de ingressos antecipados para a temporada, não existe uma quantidade definida e confiável de “lista de espera”.
Assim, analisando os números acima, percebe-se que não existiria segurança HOJE, para viabilizar um projeto de uma arena que dobre a capacidade de lugares ofertados pelo atual estádio. É claro que atualmente existe uma notória e real “sensação” de demanda reprimida, que seria atendida por uma nova arena, mais segura e confortável. Mas de quanto seria essa demanda é um número nebuloso. É preciso ressaltar que quanto maior a arena, mais onerosa é sua manutenção, e se a arena é super dimensionada, o retorno/viabilidade do investimento será prejudicado.
Além disso, é preciso lembrar ao torcedor palestrino que essa nova arena não será a arena para o resto da existência do clube. Dentro de um ciclo de renovação natural, dentro de 40/50 anos no máximo, ela estará em muitos aspectos obsoleta, e o clube certamente já estará planejando a construção de uma nova, que atenda melhor as necessidades do clube no futuro (em outro local),e talvez, com a tão sonhada capacidade para 60 ou 70 mil lugares, quem sabe ?
Com isso, não tenho a pretensão de “convencer” os palmeirenses de que uma arena com capacidade para 45.000 é “melhor” ou “certa”, mas sim de tentar encontrar bons motivos pelos quais provavelmente o projeto preveja 45.000 lugares, e não os sonhados 55/60 mil, até porque, a capacidade de sonhar é uma das principais razões de sermos considerados seres humanos.
Um abraço fraterno em todos.